Caiado rompe consenso entre estados e rejeita plano de integração nacional
Em meio a uma articulação nacional para integrar os bancos de dados das polícias civis, militares e federais, o governador de Goiás, Ronaldo Caiado (União Brasil), tornou-se a única voz pública de oposição à proposta liderada pelo Ministério da Justiça. A medida visa facilitar a troca de informações entre as forças de segurança estaduais e federais, como parte da implementação do Sistema Único de Segurança Pública (Susp), criado em 2018, mas até então paralisado por entraves burocráticos.
Segundo apuração do portal UOL, o plano do Ministério da Justiça, que recebeu o aval de quase todos os governadores, prevê o compartilhamento de estatísticas criminais, históricos de criminosos, levantamentos de inteligência e relatórios do sistema penitenciário, num esforço coordenado para unificar estratégias contra a violência.
Goiás ficou isolado
A nota enviada pelo governo de Goiás ao UOL afirma que a proposta “não é adequada” para um país com as dimensões continentais do Brasil e alega que um modelo centralizado não poderia ser aplicado em todos os estados. A justificativa oficial é de que a autonomia dos entes federativos deve ser preservada, sobretudo nas decisões operacionais relacionadas à segurança pública.
A oposição de Caiado, que é pré-candidato à Presidência da República em 2026, foi interpretada por analistas como um gesto político: ele tem adotado o combate à criminalidade como bandeira prioritária e, neste contexto, posicionar-se contra o governo federal e defender a independência estadual pode reforçar seu discurso eleitoral.
Goiás mudou de posição após consulta a Caiado
Fontes do Conselho Nacional de Secretários de Segurança Pública (Consesp) informaram ao UOL que, em reunião técnica anterior, Goiás havia se posicionado favoravelmente à integração entre as polícias. No entanto, após consulta direta ao governador, a postura foi alterada. A mudança causou surpresa entre os membros do conselho e isolou o estado na discussão.
Apoios e bastidores da negociação
A articulação para o consenso nacional foi liderada pelo secretário de Segurança Pública do Distrito Federal, Sandro Avelar, atual presidente do Consesp. Ele afirmou que alguns pontos da proposta foram suprimidos para atender às críticas de estados mais resistentes — entre eles, São Paulo, que inicialmente demonstrava reservas.
O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), chegou a se opor à proposta, mas teria sido convencido durante a rodada de negociações. Segundo o UOL, nem Tarcísio nem o secretário paulista Guilherme Derrite quiseram comentar oficialmente o tema.
O governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB), foi um dos principais defensores da medida:
“Eu sempre fui um defensor da integração das forças policiais como forma de beneficiar a população como um todo”, afirmou Ibaneis.
Como será a proposta final
A proposta do Ministério da Justiça faz parte de um pacote legislativo que será encaminhado ao Congresso Nacional ainda este mês. O ministro Ricardo Lewandowski já se reuniu cinco vezes com governadores para discutir o texto e afirmou que o modelo adotado será semelhante ao do SUS, em que diretrizes nacionais são determinadas pelo governo federal, mas a execução será descentralizada, cabendo aos estados a definição de estratégias de combate à violência.
“Foi importante negociar com os governadores. Muitas das reclamações tinham fundamento. A proposta que está indo ao Congresso reflete esse consenso”, disse Lewandowski.
Ponto de equilíbrio: o modelo híbrido
O meio-termo alcançado prevê que o governo federal fixará diretrizes gerais, enquanto os governadores decidirão como aplicar os recursos e empregar suas tropas. Essa cláusula foi decisiva para pacificar a maioria dos estados.
A proposta também retoma a implementação do Susp, criado em 2018, mas que nunca chegou a ser colocado em prática devido a entraves administrativos e políticos.
Conflito político e projeção nacional
Nos bastidores, a posição isolada de Ronaldo Caiado reforça a narrativa de oposição ao governo Lula, algo considerado estratégico para sua campanha presidencial. No entanto, o isolamento também revela tensões internas na segurança pública estadual, já que a equipe técnica inicialmente apoiava o plano de integração.
Especialistas ouvidos pelo UOL apontam que, embora a crítica à centralização seja válida, a falta de articulação políticapode enfraquecer Goiás na captação de recursos e nos programas nacionais de segurança.