Desgaste avança: desaprovação de Lula chega a 56% e atinge até o reduto do Nordeste, mostra Quaest
Presidente entra em zona crítica de popularidade; perda de apoio entre nordestinos liga alerta no Planalto e sinaliza início de “efeito Dilma” antes da metade do mandato
A gestão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) alcançou nesta semana seu pior índice de avaliação desde a posse em janeiro de 2023, de acordo com a nova pesquisa Genial/Quaest. Pela primeira vez, a desaprovação chegou a 56%, superando a aprovação (41%) por uma margem de 15 pontos percentuais. O dado surpreende aliados no Planalto não apenas pelo volume da rejeição, mas por alcançar o Nordeste, tradicional bastião eleitoral do petista, onde a reprovação subiu 9 pontos e chegou a 46%.
O levantamento, realizado entre 27 e 31 de março com 2.004 entrevistados, evidencia uma inflexão negativa no ciclo de governabilidade, alimentada por frustração econômica, percepção de promessas não cumpridas e perda de confiança em relação à capacidade de entrega do governo.
“A pesquisa mostra que o governo entrou num estágio de erosão da confiança, algo que vimos ocorrer com Dilma Rousseff em 2015 e com Jair Bolsonaro em 2021. A diferença é que Lula ainda tem tempo para reagir”, avalia o cientista político Lucas Peixoto, da Universidade de Brasília (UnB).
Nordeste vira sinal de alerta
Historicamente, a região Nordeste funcionou como porto seguro eleitoral de Lula e do PT. Mas os números atuais mostram um enfraquecimento simbólico e preocupante. Em janeiro, a aprovação entre os nordestinos era de 59%. Hoje, caiu para 50%, enquanto a desaprovação saltou para 46%.
“A quebra de confiança em um eleitor fiel é mais difícil de recuperar. Quando a base deixa de acreditar, o estrago é político e emocional. O PT precisa acender o sinal amarelo”, analisa a socióloga Ana Cláudia Ribeiro, do CEBRAP.
No Sul e Sudeste, a rejeição ultrapassa 60%, e no Centro-Oeste e Norte está em 52%. A média nacional coloca o governo em posição desfavorável para articulações eleitorais e negociações no Congresso.
Avaliação do governo Lula (março/2025)
Fonte: Genial/Quaest
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Desaprovação: 56%
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Aprovação: 41%
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Não sabem / não responderam: 3%
Economia e inflação pesam na balança
A alta da inflação, o crescimento tímido do PIB e a percepção de estagnação econômica são os principais vetores de insatisfação popular. A economista Mariana Almeida, da FGV, destaca que o brasileiro médio sente o peso dos preços antes de qualquer dado positivo da macroeconomia.
“A população está gastando mais no mercado, na conta de luz, no transporte. E sente que o governo não responde com rapidez. É o custo político da inflação persistente”, explica a especialista.
Efeito frustração: promessa não entregue
Para o pesquisador Ricardo Nunes, do Instituto DataSocial, a distância entre as promessas de campanha e os resultados percebidos até aqui gerou um “efeito frustração”, acelerando a perda de capital político.
“Lula prometeu um governo para os mais pobres, com crescimento e inclusão. Mas até agora, o que se vê é uma gestão travada, um Congresso hostil e poucos anúncios que emocionem o eleitorado”, diz Nunes.
A percepção de que o governo não tem comando sobre o próprio ritmo tem sido captada em grupos focais encomendados por partidos aliados. O presidente continua forte entre os eleitores petistas, mas vem perdendo apoio entre jovens, trabalhadores informais e setores religiosos.
Próximos passos e risco de crise política
O Palácio do Planalto acompanha os dados com preocupação, mas, nos bastidores, ministros como Rui Costa (Casa Civil) e Alexandre Padilha (Relações Institucionais) defendem uma virada de chave no segundo semestre com entregas concretas, liberação de obras e reposicionamento da comunicação.
A analogia com a queda de popularidade de Dilma Rousseff, que culminou em um processo de impeachment, já circula nos corredores de Brasília. Mas aliados afirmam que Lula mantém capital político suficiente para evitar rupturas, desde que retome a iniciativa.
“Ainda há tempo. Mas o tempo começa a correr contra o governo”, resume Lucas Peixoto.
Metodologia
A pesquisa foi realizada entre os dias 27 e 31 de março, com 2.004 entrevistas presenciais em todos os estados do país. A margem de erro é de 2 pontos percentuais, com nível de confiança de 95%.