IA desmente fórmula de Trump e expõe erro em tarifas contra a China
Ferramentas como ChatGPT, Gemini e Claude expuseram a fragilidade dos cálculos usados por Trump para justificar sanções contra a China. Especialistas apontam uso político de uma conta infantil para defender política comercial agressiva.
A matemática por trás da política comercial de Donald Trump voltou a chamar atenção em 2025 após viralizarem, nas redes, testes feitos por usuários com ferramentas de inteligência artificial generativa. Eles pediram a serviços como ChatGPT, Gemini e Claude que explicassem o raciocínio por trás da chamada “tabela de tarifas recíprocas” — um modelo defendido pelo ex-presidente dos EUA para calcular tarifas de importação de países com superávit comercial em relação aos Estados Unidos.
A resposta das plataformas expôs uma fórmula simplista, baseada em regra de três, que ignora completamente as complexidades da política comercial internacional. Segundo os modelos de IA, o cálculo parte de uma operação básica: pegar o valor do superávit de um país, multiplicar por 100 e dividir pelas exportações para os EUA. O resultado é convertido na alíquota da tarifa a ser aplicada, como uma “retaliação proporcional”.
No caso da China, por exemplo, Trump usou essa fórmula para defender uma tarifa de 67% sobre produtos chineses, partindo do seguinte raciocínio: o superávit comercial da China com os EUA era de US$ 295,4 bilhões, e as exportações somavam US$ 439,9 bilhões. A conta (295,4 ÷ 439,9 × 100) resultaria nos 67%. A IA replicou o cálculo, mas apontou falhas conceituais graves.
Fórmula infantilizada
Segundo especialistas ouvidos pela Veja, a ideia de aplicar tarifas com base apenas em desequilíbrios comerciais é “economicamente primitiva” e “politicamente oportunista”. Para a economista internacional Mariana Surovecik, a conta parece uma simulação feita por estudantes do Ensino Fundamental, não por um governo com acesso a complexas ferramentas de análise econômica. “Trata-se de uma tentativa de justificar decisões protecionistas com um verniz técnico. Mas é apenas uma ilusão matemática”, afirma.
A fórmula ainda desconsidera barreiras não tarifárias, taxas internas, diferenciação de produtos, cadeias de valor globais e o impacto nos consumidores. O próprio Trump, segundo a matéria, incluiu posteriormente no discurso esses elementos adicionais — como barreiras técnicas e subsídios —, mas os cálculos continuaram baseados em uma equação simplificada.
Inteligência artificial como ferramenta crítica
O episódio viralizou depois que usuários pediram a diferentes IA’s generativas que explicassem a conta. Ao serem confrontadas com a fórmula, ferramentas como o ChatGPT sugeriram reformulações e alertaram para o risco de distorções, recomendando métodos mais robustos para lidar com desequilíbrios comerciais.
O experimento virou objeto de memes e paródias nas redes, com internautas dizendo que “até a IA sabe mais de economia que Trump”. No entanto, o caso vai além da crítica humorística: revela a força das tecnologias emergentes como instrumentos de escrutínio e transparência política.
Para o cientista de dados André Corrêa, o episódio representa uma virada no uso das tecnologias de IA como plataformas de validação e verificação de discursos públicos. “Estamos falando de uma IA treinada com milhares de dados reais, sendo capaz de identificar erros lógicos e questionar propostas simplistas que seriam, antes, aceitas sem muita contestação.”
Crítica global e desconfiança de aliados
A repercussão foi tamanha que até aliados comerciais dos EUA passaram a questionar os critérios das tarifas propostas. Diplomatas e ministros da economia, segundo a reportagem, admitiram desconforto com a “matemática criativa” usada pela Casa Branca. E mesmo analistas alinhados ao trumpismo começaram a desconfiar da estratégia.
A apresentação da “tabela de tarifas recíprocas”, que ocorreu durante o mandato de Trump, foi descrita como um “grande cartaz colorido” que imitava exercícios escolares de matemática. À época, foi duramente criticada por colunistas do Wall Street Journal, que classificaram a fórmula como um “desastre diplomático anunciado”.
Caminhos alternativos e recomendações
Segundo as IAs testadas, há métodos mais precisos para lidar com questões de reciprocidade e balança comercial. Entre eles:
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Modelos de equilíbrio geral computável, que simulam impactos de tarifas na economia global;
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Negociação multilateral, via OMC, para resolver desequilíbrios sem retaliações unilaterais;
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Acordos bilaterais ajustados, com cláusulas técnicas e avaliação de impacto.
Para analistas econômicos, a lição deixada pelo episódio é clara: o uso de ferramentas digitais, inclusive inteligência artificial, pode ser um importante mecanismo de checagem pública de políticas de governo — especialmente em contextos de populismo econômico.