Do sertão à Forbes: fundador da Casa dos Ventos se torna o primeiro bilionário da energia verde no Brasil
Mário Araripe acumula fortuna de US$ 3 bilhões e simboliza a virada estratégica do país rumo à liderança em energias renováveis
O Brasil acaba de conquistar um marco inédito em sua trajetória econômica: o surgimento do primeiro bilionário da economia verde. O feito é de Mário Araripe, engenheiro cearense de 70 anos, que estreou na tradicional lista de bilionários da revista Forbes com uma fortuna estimada em US$ 3 bilhões, o equivalente a cerca de R$ 17 bilhões.
Fundador da Casa dos Ventos, maior desenvolvedora de energia eólica e solar do Brasil, Araripe simboliza uma transformação silenciosa, mas poderosa: a ascensão das energias renováveis como eixo de crescimento econômico nacional e protagonismo internacional.
“Araripe é o nome de um novo Brasil: inovador, sustentável e capaz de gerar riqueza em harmonia com o meio ambiente”, resume o economista Sérgio Vale, da MB Associados.
Engenheiro, visionário e empreendedor serial
Natural de Fortaleza e formado pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), Mário Araripe é um nome conhecido entre os empresários que atuam fora dos grandes centros. Antes de se tornar o rosto da energia renovável no Brasil, ele teve passagens pelos setores têxtil, imobiliário e automobilístico.
Na virada dos anos 2000, fundou a Troller, fabricante de veículos off-road, que foi vendida para a Ford em 2006. Em 2007, decidiu apostar em um segmento ainda incipiente no país: a geração de energia por fontes limpas, principalmente eólica.
Com uma estratégia que unia visão tecnológica, inteligência territorial e financiamento estruturado, fundou a Casa dos Ventos, que desde então mapeou e desenvolveu dezenas de projetos em estados como Rio Grande do Norte, Bahia, Pernambuco, Ceará e Piauí.
Casa dos Ventos: potência verde made in Brazil
A Casa dos Ventos opera atualmente com 3,4 gigawatts (GW) em projetos de energia eólica e solar em operação ou construção, e um portfólio em desenvolvimento que ultrapassa 12 GW — o equivalente à potência de Itaipu.
O empreendimento mais emblemático é o Complexo Eólico Rio do Vento, no Rio Grande do Norte, com mais de 1 GW instalado e um dos maiores do mundo em geração eólica terrestre.
A empresa também é pioneira na estratégia de vendas diretas de energia para grandes consumidores, como mineradoras e companhias do setor alimentício, driblando leilões e acelerando a transição energética no setor privado.
“O diferencial de Araripe foi entender que a energia verde precisava sair da vitrine e ir para o contrato direto, no chão da fábrica. E ele fez isso com velocidade e precisão”, analisa Paula Kovacs, especialista em transição energética da FGV Energia.
Parcerias internacionais e bilhões em investimentos
O reconhecimento internacional veio em 2022, quando a francesa TotalEnergies, uma das maiores petroleiras do mundo em transição para o verde, comprou 34% da Casa dos Ventos por R$ 4,2 bilhões, formando uma joint venture para desenvolver até 12 GW em capacidade renovável.
Em 2023, a Petrobras firmou um memorando de entendimento com a Casa dos Ventos e a TotalEnergies para projetos conjuntos em eólica offshore, solar e hidrogênio verde. Com isso, o Brasil passou a ser visto como hub estratégico global para transição energética.
A previsão é que a Casa dos Ventos invista R$ 12 bilhões até 2026 em novos empreendimentos.
Ascensão à Forbes: símbolo de uma nova elite econômica
Na edição 2025 da Forbes, Mário Araripe aparece na 1.219ª posição, ao lado de nomes como David Vélez (Nubank), Jorge Paulo Lemann (3G Capital) e André Esteves (BTG Pactual). No Brasil, ele é o único representante da economia verde entre os bilionários.
“O Brasil entra definitivamente no mapa da nova economia com o nome de Araripe. Ele não herdou, não especulou, não comprou estatal barata. Ele construiu valor a partir do vento e do sol”, afirma o sociólogo Henrique Moura, do Instituto Clima e Sociedade (ICS).
Energia verde: riqueza com propósito
O caso de Mário Araripe representa mais que uma fortuna individual. Ele marca a mudança no perfil da elite econômica brasileira, até então dominada por nomes ligados a bancos, commodities e consumo.
Segundo o Instituto ClimaInfo, os investimentos em energia limpa no Brasil bateram R$ 60 bilhões em 2024, e a tendência é que esse valor cresça 40% até 2026, com a expansão do hidrogênio verde, eólica offshore e armazenamento em baterias.
Perspectivas
A presença de Araripe na Forbes pode atrair ainda mais atenção de investidores internacionais para o Brasil. Em Davos, ele foi citado como exemplo de “empresário do século XXI” por uma comitiva da Agência Internacional de Energia Renovável (IRENA).
“O Brasil não precisa escolher entre crescer e preservar. Pode fazer os dois — e o sucesso de Araripe prova isso”, conclui Guilherme Cerqueira, da BloombergNEF.