Tarifaço de Trump abre janela estratégica para o Brasil diversificar exportações e buscar novos mercados
Especialistas veem nas restrições americanas uma chance para o país reposicionar sua pauta exportadora, fortalecer acordos internacionais e ampliar valor agregado dos produtos
tarifaço de 10% anunciado pelo ex-presidente e pré-candidato Donald Trump sobre produtos importados do Brasil, embora represente uma ameaça concreta ao agronegócio nacional, também pode ser interpretado como um divisor de águas para o comércio exterior brasileiro. É o que avaliam economistas e analistas do setor após o alerta emitido pela Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA).
A sobretaxa atinge diretamente dois dos principais produtos agroexportadores brasileiros aos Estados Unidos: suco de laranja e carne bovina, com perdas estimadas em bilhões. No entanto, especialistas ouvidos pela reportagem afirmam que o episódio pode acelerar o redesenho estratégico da política externa brasileira, promovendo a diversificação de mercados, o fortalecimento de acordos comerciais e o estímulo à exportação de bens de maior valor agregado.
Protecionismo americano e nova realidade global
O alerta da CNA é claro: o Brasil poderá deixar de exportar até 743 milhões de litros de suco de laranja e 28 mil toneladas de carne bovina para os EUA, principal destino de ambos os produtos. No suco, a tarifa passa de 5,9% para 15,9%. Na carne, o salto é de 33% para 43%.
Apesar das perdas estimadas, o professor Adalmir Marquetti, economista e pesquisador da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, vê no episódio um ponto de inflexão:
“A crise gerada pelo tarifaço pode ser o gatilho para o Brasil reposicionar sua pauta exportadora e assumir protagonismo em outros mercados. Temos potencial para ocupar espaços deixados por países que, ao retaliarem os EUA, deixem de exportar para lá.”
Para Marquetti, é preciso aproveitar o momento para consolidar o acordo Mercosul-União Europeia, além de buscar parcerias com países da Ásia e Oriente Médio. Ele destaca as recentes viagens do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao Japão e ao Vietnã como movimentos estratégicos importantes:
“A diversificação é o melhor antídoto contra o protecionismo. O Brasil precisa intensificar suas relações comerciais com países em ascensão e fortalecer sua posição no mercado global.”
Da dependência ao reposicionamento internacional
Em 2024, o Brasil exportou US$ 12,1 bilhões em produtos aos Estados Unidos, dos quais uma parcela significativa veio do agronegócio. A CNA estima que, nos últimos 10 anos, a participação dos EUA na pauta agroexportadora oscilou entre 6% e 7,5%, atrás apenas da União Europeia e da China.
Os produtos brasileiros que lideram as exportações ao mercado americano incluem:
-
Café verde
-
Celulose
-
Suco de laranja
-
Carne bovina in natura
-
Açúcar de cana bruto
-
Etanol
-
Madeira processada
-
Sebo bovino
O problema, segundo Marquetti, é que boa parte da pauta ainda é baseada em produtos primários ou com baixo valor agregado. “A oportunidade está em transformar essa base, agregando tecnologia, inovação e industrialização”, afirma.
Exportar mais e melhor: hora de avançar com valor agregado
O economista agroindustrial José Roberto Mendonça concorda que a crise imposta por Trump exige uma reação firme, mas estratégica. Segundo ele, o Brasil não pode mais depender de um número limitado de mercados ou de uma pauta baseada majoritariamente em commodities.
“Precisamos usar essa crise como um acelerador de mudanças. O Brasil tem expertise, infraestrutura e mercado interno sólido para escalar a exportação de produtos industrializados, de base tecnológica e serviços, além do agro.”
Mendonça também vê espaço para ampliação da presença brasileira na Ásia, especialmente com a crescente demanda da China por alimentos e bioenergia. “Já estamos exportando mais para lá. Com negociação, podemos ampliar volumes e incluir novos produtos na balança.”
Diplomacia como ferramenta de avanço
Enquanto o Congresso Nacional aprovou a Lei da Reciprocidade Comercial (PL 2088/2023), que autoriza o Brasil a retaliar países que impuserem barreiras comerciais, entidades como a CNA alertam: a retaliação deve ser usada apenas como último recurso.
“Retaliação deve ser instrumento de última instância. O Brasil precisa manter a imagem de parceiro confiável e defensor do livre comércio. O momento exige estratégia, não impulsividade”, afirmou a entidade em nota oficial.
O governo brasileiro, por meio do Itamaraty e do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), também indicou que não descarta levar o caso à Organização Mundial do Comércio (OMC), mas que a prioridade é a negociação diplomática com os Estados Unidos.
Acordo Mercosul-União Europeia: agora ou nunca
Para Adalmir Marquetti, a consolidação do acordo Mercosul–União Europeia se tornou ainda mais urgente após o anúncio de Trump. Além de ampliar os destinos da produção nacional, o tratado pode equilibrar a balança de serviços, que historicamente é deficitária para o Brasil.
“O Brasil tem uma balança comercial superavitária, mas uma balança de serviços negativa. O acordo com a UE pode ajudar a reduzir esse desequilíbrio e fortalecer setores como tecnologia, audiovisual e serviços digitais, onde o Brasil ainda importa mais do que exporta”, explicou.
Oportunidade disfarçada de crise
O tarifaço de Trump, embora impacte negativamente setores do agronegócio, também escancara a necessidade de um novo capítulo na inserção internacional do Brasil. Ao mesmo tempo em que pressiona por resultados a curto prazo, o cenário pode acelerar transformações estruturais com ganhos futuros.
“Essa crise é real, mas também é uma oportunidade rara. Se agirmos com inteligência e planejamento, podemos transformar esse revés em impulso estratégico para um novo ciclo de desenvolvimento e comércio exterior”, conclui Mendonça.